Wallon e o desenvolvimento infantil

Fases do Desenvolvimento Infantil



Segundo Wallon (GALVÃO, 1995), não há linearidade no desenvolvimento infantil. As fases se alternam entre predominância afetiva e cognitiva. Cada fase tem o seu colorido e é marcada por um tipo de atividade. É o recurso que a criança dispõe, naquele momento, para interagir com o meio em que vive.

Os fatores orgânicos são responsáveis pela sequência dos estágios de desenvolvimento, mas não garantem um tempo de duração fixo.

  • Estágio impulsivo-emocional - abrange o primeiro ano de vida. É a emoção que predomina nessa fase. Através dela a criança interage com o meio.
  • Estágio sensório-motor e projetivo - vai até o terceiro ano. Predomina nessa fase as relações cognitivas com o meio (inteligência prática e simbólica). A criança começa a explorar o mundo físico (exploração sensório-motora). A marcha e a preensão possibilitam a manipulação dos objetos e exploração do espaço que a cerca. Outro marco importante nesse estágio é o desenvolvimento da linguagem e da função simbólica. O termo "projetivo" significa que a criança precisa dos gestos para se expressar, o pensamento (ato mental) "projeta-se" em atos motores (movimentos, gestos).
  • Estágio do personalismo - vai dos 3 aos 6 anos. Há uma predominância das relações afetivas. Nessa fase a criança forma sua personalidade. A construção da consciência de si mesma que acontece através das interações sociais conduz seu interesse de volta para as pessoas.
  • Estágio categorial - por volta de 6 anos. Predomina o aspecto cognitivo nas relações da criança com o meio. Há um progresso no plano de inteligência quando ela consolida a função simbólica e a diferenciação da personalidade. A criança volta seu interesse para as coisas, para o conhecimento e para a conquista do mundo exterior.
  • Estágio da adolescência - a crise da puberdade põe um fim à tranquilidade afetiva característica do estágio categorial e abre espaço para nova definição da personalidade. Há um retorno à afetividade num processo que traz à tona questões pessoais, morais e existenciais.

Nota-se um gap entre o estágio categorial e da adolescência na teoria de Wallon. Talvez porque nesse período (que aqui no Brasil é justamente o período de ensino fundamental) a criança está envolvida com o aspecto de desenvolvimento do conhecimento através do meio (agora, a escola). Surgem então, os distúrbios relacionados à aprendizagem formal, alterações de fala e linguagem e até detecta-se perdas auditivas e problemas de processamento auditivo central.

Cabe ao fonoaudiólogo investigar tudo o que aconteceu até chegar nesse momento. 

Como foi essa relação afetiva da criança no estágio impulsivo-emocional? Como foi a relação dessa criança com o meio, com o objeto? Ela passou bem pela fase de exploração sensório-motora? Pegava o objeto e explorava? Como foi o desenvolvimento da marcha, preensão e linguagem? Depende ainda dos gestos para se expressar? Em casos de atraso de linguagem (crianças do estágio sensório-motor) como os pais reagem às tentativas de comunicação da criança? Tentam antecipar-se aos desejos da criança? Ao primeiro sinal de choro, os pais correm para satisfazer-lhe? 

Tudo deve ser avaliado. Muitas vezes o problema está nos pais e não na criança. Para esses casos pode-se tentar encaminhar para o psicólogo. Porém, na maioria das vezes, o fonoaudiólogo é que lidará com estas questões. Sendo necessário, além da paciência, muita sabedoria.

Na sucessão de estágios há uma alternada predominância entre afetividade e cognição. Porém, Wallon deixa claro que elas se integram. Cada uma incorpora as conquistas realizadas pela outra e assim se constroem num processo contínuo de integração e diferenciação. 


Enfim, estudar as teorias do desenvolvimento infantil é muito útil na avaliação e tratamento fonoaudiológicos. Indicamos o estudo da teoria piagetiana também.

Referência bibliográfica: 
GALVÃO, Izabel. Henri Wallon: uma concepção dialética do desenvolvimento infantil. RJ: Vozes, 1995.

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